Davi Kopenawa, líder yanomami

Boa Vista, 20 de novembro de 2007.

Davi Kopenawa Yanomami é sem dúvida um dos líderes indígenas mais conhecidos e reconhecidos do mundo.

Acaba de regressar ao Brasil com seu filho Dário de uma viagem pela Grã-Bretanha e Alemanha, convidados pela organização de defesa dos povos indígenas Survival Internacional. Em Londres se reuniram com o Primeiro Ministro Gordon Brown e falou ante a Câmara dos Comuns.

Lhe encontramos na cidade de Boa Vista, a capital do estado brasileiro de Roraima, mais concretamente na sede de Hutukura, a organização indígena da qual é presidente e que foi criada pelos próprios yanomami para defender sua cultura.

Depois de nos avisar que seu português ainda não é fluente mas suficiente para nos comunicar, inicia uma conversação em que nos fala com simplicidade porém com a profundidade de quem tem as coisas claras, sem deixar margem ao relativo: “isto é bom e isto não é” nos diz com firmeza, sua mensagem é muito clara: “Se o homem branco seguir assim e não mudar, não só vai destruir aos yanomami senão a todo o planeta”.

ENTREVISTA COM DAVI KOPENAWA YANOMAMI

“Índios e brancos falamos línguas diferentes, vivemos longe uns dos outros e não nos conhecemos. Meu povo não conhece os brancos que vivem na cidade e os brancos não conhecem os índios que vivem na selva. Somos poucos os que falamos português, e estamos aqui para defender a selva e nossos direitos.

Por isso quero explicar aos brancos como é o povo yanomami.

O povo yanomami não veio viver no Brasil, nascemos aqui, na selva, meu povo é antigo, somos filhos de Omama, o criador.

Na floresta cada povo tem seu espaço, não vivemos amontoados como os brancos, vivemos distribuídos pela selva, nossa cultura e costumes nos dizem que é melhor viver assim, isolados uns dos outros.

Minha casa não é como estas casas da cidade, minha casa é a maloca, redonda como o planeta, nela vivemos toda a comunidade. Nunca faltou nada para os yanomami, sempre tivemos comida, sempre trabalhamos, porém não para vender, para comer, nós trabalhamos para alimentar nossa comunidade, plantamos banana, macaxeira, cana de açúcar, mamão,... para alimentar aos yanomami, ninguém vende.

A selva é nossa cidade, não necessitamos de sua cidade, porém sim necessitamos da selva, é a que nos dá vida, alegria, saúde, alimento,... tudo.

Não temos médicos, cada comunidade tem seu pajé, o curandeiro, um médico indígena que utiliza a natureza para curar, ele chama os espíritos da selva. Eu também sou pajé, aprendi com meu grande pajé, aprendi com ele.

Nas aldeias somos livres, caçamos, chamamos aos amigos, nos reunimos, fazemos festa, nas aldeias a vida é muito boa.

Assim viveu e segue vivendo meu povo.

Porém chegou o branco e trouxe problemas, chegaram os políticos provocando, roubando a terra, destruindo a natureza, levando doenças para as comunidades.

Hoje estamos preocupados porque o governo está se aproximando cada vez mais, os latifundiários estão entrando cada vez mais, estão abrindo estradas para que circulem carros, caminhões, ônibus,... Isso é costume dos brancos porém não dos índios.

O branco chega porque já destruiu suas terras e sua floresta. Fez buracos buscando riquezas, combustíveis,... suja tudo e quando chove toda a sujeira vai ao mar, o mar se suja e adoece também. Essa idéia dos brancos, esse costume dos brancos, é por causa disso que todos estamos sofrendo, todos, não só os indígenas, os próprios brancos também. O branco capitalista tem empresa grande, tem casa com piscina, carro,... tem tudo, porém o branco pobre que não tem casa, não tem comida, não tem onde plantar,... não tem nada.

Nós yanomami podemos ajudar ao mundo do branco porém não nos querem ouvir. Nós dizemos aos políticos brancos: “homem branco é muito inteligente porém não consegue cuidar da natureza, não consegue ver longe, não consegue descobrir o que está passando ao seu redor, na terra só vê o brilho das pedras preciosas,..”, porém não busca uma maneira de que todos vivam bem, não busca um futuro melhor para todos, só pensa no dinheiro, em talhar a selva e vender a madeira.

Para nós, indígenas, a terra é nosso pai e mãe, ela nos cuida, nos dá comida, deixa crescer as plantas que semeamos, por ela correm os rios, a chuva que lava e refresca,...

Os povos indígenas nunca destruíram a natureza, nossos pais tiveram muita sabedoria e não deixaram que fosse destruída. Quem a criou nos deu ordenes: “vós sois povos indígenas, não podeis destruir a grande selva, se a destrói o calor do sol os queimará, ficarão enfermos, acabará a água, as plantas morrerão”, assim a natureza nos explicou que temos que cuidar e não deixar que seja destruída.

A natureza também falou com o branco, “homem branco, tenha cuidado com a floresta, use-a com muito cuidado, ela tem vida”, porém o branco não escuta.

O governo só consegue ouvir outros governos, não acredita no que lhe falamos, diz aos indígenas: “veja índio, vocês não tem direito a viver nestas terras, a selva não é sua”. O governo nos quer emprestar a floresta, porém a floresta é nossa própria terra onde vivemos, não é algo que nos possa emprestar. Nós vamos seguir vivendo e morrendo nela, vamos manter a floresta para o futuro.

Dos políticos brancos aprendi que são fortes porém os indígenas também temos que ser, não podemos permitir que nos enganem, que nos manipulem, temos que ser inteligentes. O branco muitas vezes diz que os indígenas são preguiçosos, que não sabemos nada, que não pensamos, porém o indígena sabe tudo de uma maneira diferente, nossa sabedoria é diferente da do branco. Quem fala contra os indígenas é gente que não tem respeito, nossos pais nos ensinaram a respeitar porém o branco está sempre tentando criar inimigos, não respeita.

Estamos aprendendo, não lutamos em solitário, vocês também podem aprender e lutar para não deixar que a terra seja destruída pelo governo, pelos latifundiários, pelos garimpeiros (buscadores de ouro e diamantes),.... Isso já ocorreu em outros lugares, fico muito chateado com os brancos que maltrataram os irmãos indígenas dos Estados Unidos. Primeiro mataram lá e agora está ocorrendo aqui.

Eu gostaria que vocês nos olhassem e falassem fora que também somos pessoas, somos gente, índio não é selvagem, índio não é animal, somos pessoas, temos família, temos filhos, temos vida e pensamentos, somos os indígenas quem protegemos os bosques, se acabam com os índios também acabarão com as florestas, por isso vocês também devem estar atentos, seus parentes, seus amigos,... A selva amazônica é importante para nós e também para vocês, para o futuro de todos, é o pulmão do planeta.

Nós índios estamos necessitando de ajuda, ajuda política para pressionar ao governo brasileiro porque fazem projetos perigosos que não são bons para os indígenas, trazem a nossas terras boiadeiros e companhias mineradoras, vi no passado as companhias mineradoras fazer grandes buracos na terra, sempre destruindo e isso não queremos mais.

Também estamos necessitando de ajuda para manter a cultura. Os yanomami falam seu idioma, vivem em malocas, utilizam pinturas,... Muitos parentes (outros povos indígenas) já perderam o idioma, querem imitar o branco vestindo-se como ele, vivendo em casas, tomando café com leite e açúcar, tomando cerveja,... perderam sua cultura e a substituíram pela do branco. Quando se perde a cultura não tem retorno, é como uma árvore cortada pela raiz. Por isso criamos Hutukara, a associação que defende a cultura yanomami, e estamos procurando organizações e pessoas que possam ajudar economicamente para levar adiante esta tarefa e para fortalecer o movimento indígena.

MENSAGEM DE DAVI KOPENAWA

Para as crianças, não tão crianças, os jovens de 10, 11, 12, 13,14 anos, que aprendam com os índios. Esses jovens que estudam na escola, os que estudam para ser deputado, outros que estudam para ser presidente, médico,... outros que estudam para ser amigos da terra, amigos dos índios também.

Eu gostaria que aprendessem a nos respeitar, a floresta e tudo o que existe. Isso é bom para conhecer índio e branco, para ser amigo, não necessitamos ser inimigos todo o tempo.

Hoje em dia nós índios necessitamos fazer amizade, não faz falta continuar usando o costume do pai, isso já é velho, pensamento novo é fazer amizade para conhecer o índio, para ser amigo, ser amigo para lutar juntos para defender nosso país, para defender nosso lugar. Porque tem muitos inimigos que são fortes, inimigos são os políticos que nos estão empurrando para um buraco.

Então estou enviando esta mensagem para as moças, os moços, para todos, isso é importante, para amigo, eu não quero ser inimigo de ninguém, sou inimigo das doenças, dos políticos, sou realmente contra a mineração, o latifundiário, o pescador, as grandes mineradoras, sou contra mesmo, não me gostam porque nunca vi na minha vida mineradora destruindo minha terra e não quero.

Minha mensagem é que eles pensem e pressionem nosso governo brasileiro para que respeite o povo indígena, a floresta, a natureza,... o meio ambiente. Esta é minha mensagem para o povo da cidade.


Reportagens relacionadas:

Áudio mensagem de David Kopenawa Yanomami a outros povos.

Entrevista com P. Laurindo e os yanomamis.


Links de interesse :
Survival (www.survival.es)
CCPY e Hutukara (www.proyanomami.org.br)


*Traduzido ao português por Álvaro S. Campos.



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