Juventude cidadã na Fazenda Coutos

Salvador, 20 de novembro de 2006.

Nota: Segundo de uma série de 5 artigos que iremos publicando sobre o trabalho da ONG CIPO de Salvador da Bahia.
Primeiro artigo: CIPÓ – Comunicação Interativa

Através de UNICEF e da organização não governamental CIPÓ conhecemos a Taíse e Ailton, dois jovens colaboradores que vivem e realizam trabalhos voluntários no Bairro Fazenda Coutos na região do Subúrbio Ferroviário de Salvador (Brasil), para que nos expliquem a situação deste bairro de baixa renda e no que consistem suas atuações.


Ailton de 20 anos e Taíse de 24, jovens que mostram uma grande maturidade e solidariedade colaborando ativa e voluntariamente na melhora das condições de vida do lugar onde vivem.

Taíse: O bairro Fazenda Coutos é um lugar que tem muitas deficiências. Nós, os jovens, sofremos de falta de oportunidades. Existem muitas casas que estão localizadas longe das escolas e as famílias não tem como pagar o transporte escolar, pelo que as crianças deixam de ir a aula e surgem problemas de exploração sexual e tráfico de drogas, inclusive em idades muito jovens. Faltam projetos sociais e espaços onde brincar. Aqui as crianças não são meninos e meninas, e sim adultos pequenos que tem que trabalhar duramente.

A maioria dos moradores vive do comércio informal e o índice de desemprego é altíssimo. Existem famílias inteiras com 10 ou 12 filhos que vivem do que lhes dá a venda de amendoins e caramelos nos ônibus. Muitas crianças vão para a aula durante um período do dia e trabalham no outro, outros muitos simplesmente não vão. Em um estudo que fizemos com crianças que trabalham e não podem ir à escola nos diziam que sentiam falta de brincar porém que necessitavam trabalhar porque são parte importante do sustento familiar.

Ailton: é uma situação difícil porém o bairro não tem somente esse lado negativo, também tem outro positivo. A carência faz com que se desenvolva a criatividade e o bairro é uma fonte inesgotável de criação, aqui tem diversos grupos que fazem suas exposições artísticas onde as crianças também participam. É um bairro popular, rico em cultura, em diversidade, com muito potencial e à juventude só lhe falta um empurrão, uma oportunidade, para que possa mostrar sua capacidade, desenvolver sua criatividade pessoal e também coletiva.

Existem projetos sociais como o Círculo Solidário que se realiza em colaboração com CIPÓ, a formação da Casa Brasil onde a juventude terá seu espaço e os jovens poderão trabalhar com Web design, fotografia, manutenção de computadores,... é uma forma de engajá-los para que façam um trabalho pela comunidade.

Nós estamos trabalhando em atividades artísticas e culturais com crianças e jovens em seu tempo livre para mantê-los longe das drogas e da criminalidade. Seus trabalhos são apresentados nas ruas para que os próprios moradores do bairro os vejam e os valorizem. Também é uma forma de resgatar sua cultura, sua própria identidade.

Taíse: Eu vejo isto inclusive do ponto de vista pessoal porque tenho uma filha de 3 anos que é muito espevitada e ativa e tenho medo de que quando cresça acabe seguindo por maus caminhos. Enquanto está dentro de casa não tem perigo porém na rua é diferente. Já temos um grupo chamado PIN que desenvolve atividades para crianças a partir dos 4 anos, é bom ver que se está trabalhando pela integração social e cultural dos mais pequenos.

Sabemos que fora do bairro se diz que Fazenda Coutos é um lugar pobre onde só ocorrem coisas ruins porém não é certo. Ailton e eu somos também parte de Fazenda Coutos e como pode ver somos positivos, trabalhamos muito para que as coisas mudem. Porém isto é algo que parece não interessar, que ninguém mostra lá fora.

Ailton: a juventude também está se articulando. Agora por exemplo se uniu para a criação de um blog comunitário, para poder mostrar esse lado positivo, a realidade do bairro, resgatar sua historia e sua cultura e tentar reverter essa imagem negativa que os meios de comunicação tradicionais estão divulgando. Se está criando também um núcleo de políticas públicas para que a juventude monitore o governo e veja de que forma está ajudando a esta comunidade, de que forma estão sendo distribuídos os recursos, que projetos estão sendo implantados, etc. Nestes momentos a maior luta que os jovens tem é conseguir uma escola de nível médio no bairro porque somente temos uma escola de educação básica e os jovens estão se obrigando a ir a outros bairros se querem continuar estudando.


Taíse mostra um enorme bueiro sem cobrir na calçada. “Esta é a situação do bairro e ao poder público não importa” nos diz.

Pensamos também na democratização da educação, em como podemos melhorá-la. Através do núcleo de políticas públicas discutiremos como está chegando aos jovens, e como podemos ajudar à escola a mudar essa estrutura formal do professor na frente e os alunos atrás escutando passivamente.

Nós, a juventude e os líderes comunitários estamos preparando um “mutirão”, um trabalho conjunto de limpeza do bairro para conscientizar os moradores sobre como conservar e manter o bairro limpo.

Não, Fazenda Coutos não tem só o lado obscuro de pobreza e marginalidade que repetem os meios de comunicação, aqui existe uma riqueza incrível de pessoas que querem mudanças, que querem dignidade para sua gente.

Taíse: a comunidade é capaz de melhorar, não tem que esperar que o governo decida fazer, ou decida ajudar-nos. A comunidade deve interagir com a escola, os pais tem que se envolver com seus filhos na escola durante todo o ano, tem direitos porém também deveres.

Eu gostaria de mencionar um trabalho que estou desenvolvendo quase a 4 anos que não tem que ver com infância nem juventude porém acredito que também é muito positivo, se trata da reintegração de jovens e adultos que vão desde os 15 anos até os… 100. Ensino lhes a ler, a escrever, a conviver socialmente, conceitos importantes como políticas públicas, quem somos,... faço um resgate destas pessoas que no seu momento não tiveram acesso à educação.

Ailton: estamos pensando em criar grêmios estudantis e mesas redondas para discutir com os futuros candidatos a vereadores quais são seus planos, suas soluções para melhorar o bairro e enganchar à juventude. Os jovens são seres sociais que devem dizer o que querem para seu futuro, devem exigir mudanças, devem vigiar os projetos, são aqueles que conhecem o bairro e sabem como atuar.

O mundo é grande e complexo, sabemos que nós não vamos mudá-lo porém podemos mudar ao menos nosso pequeno mundo, aquele em que vivemos, é um trabalho de formiga, e já estamos nele.

Mais informações sobre CIPÓ: www.cipo.org.br.



*Traduzido ao português por Álvaro S. Campos.



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